segunda-feira, 30 de novembro de 2009

O depressivo na contramão





O que a depressão pode nos dizer sobre o mundo em que vivemos?

Eliane Brum (Colunista da Revista Época)






Em seu último livro, O Tempo e o Cão – a atualidade das depressões (Boitempo, 2009), a psicanalista Maria Rita Kehl nos provoca com uma hipótese sobre a qual vale a pena pensar: a depressão, que vem se tornando uma epidemia mundial desde os anos 70, pode ser a versão contemporânea do mal-estar na civilização. Ela teria algo a dizer sobre a forma como estamos vivendo e sobre os valores da nossa época. Para além da patologia, a depressão pode ser vista também como um sintoma social.

O que nossa época nos exige? Euforia, confiança, velocidade. Temos de ser pró-ativos. O que ela nos promete? Se soubermos traçar nossas metas e construir nossa estratégia, atingiremos o sucesso. Se produzirmos e consumirmos, alcançaremos a felicidade. Ser feliz deixou de ser uma possibilidade esporádica para se tornar uma obrigação permanente. Para nós, seres desta época, nada menos que o gozo pleno. Fora disso, só o fracasso. E o fracasso, este é sempre pessoal. Se não alcançamos o que nos prometeram no final do arco-íris é porque cometemos algum erro no caminho. E fracassar, como sabemos, passou a ser não um fato inerente à vida, mas uma vergonha.

O depressivo, neste contexto, é a voz dissonante. É o cara na contramão atrapalhando o tráfego, como na letra de Chico Buarque. Como diz Maria Rita, é aquele “que desafina o coro dos contentes”. Ela afirma, logo no início do livro: “Analisar as depressões como uma das expressões do sintoma social contemporâneo significa supor que os depressivos constituam, em seu silêncio e em seu recolhimento, um grupo tão ruidoso quanto foram as histéricas no século XIX. A depressão é a expressão do mal-estar que faz água e ameaça afundar a nau dos bem-adaptados ao século da velocidade, da euforia prêt-à-porter, da saúde, do exibicionismo e, como já se tornou chavão, do consumo desenfreado”.

Neste sentido, a mera existência do depressivo aponta, nas palavras da psicanalista, a má notícia que ninguém quer saber. Se basta ser pró-ativo, bem-sucedido e saudável, por que tantos e cada vez mais, como mostram as estatísticas, são classificados como depressivos?

“A depressão”, diz Maria Rita, “é sintoma social porque desfaz, lenta e silenciosamente, a teia de sentidos e de crenças que sustenta e ordena a vida social desta primeira década do século XXI. Por isso mesmo, os depressivos, além de se sentirem na contramão do seu tempo, vêem sua solidão agravar-se em função do desprestígio social da sua tristeza”.

Cada época cria seus proscritos. Na época da euforia e da velocidade, nada mais desafinado do que um depressivo. Se, em vez de hoje, o depressivo, então chamado de melancólico, vivesse no romantismo do final do século XVIII, “estaria tão adequado à cultura e aos valores de sua época quanto um perverso hospedado no castelo do marquês de Sade”.

Hoje, porém, os depressivos parecem ser não só o portador de uma má notícia, mas de uma doença contagiosa. Quem quer ter por perto alguém que sofre em um mundo cuja existência só se justifica pelo sucesso e pela felicidade plena? Num mundo em que todos têm de estar “de bem com a vida” para merecer companhia?

O depressivo não apenas sofre, mas silencia num mundo em que as pessoas preenchem todos os espaços com sua voz. E não apenas silencia, mas em vez de preencher seu tempo com dezenas de tarefas, uma agenda cheia, se amontoa no sofá da sala e nada quer fazer. Não só é lento, como chega a ser imóvel. Sua mera existência nega todos os valores propagandeados dia após dia ao redor de nós – e também pelo nosso próprio discurso afirmativo e de auto-convencimento.

Ao existir, o depressivo faz uma resistência política passiva ao establishment. Obviamente, ele não é um ativista nem tem consciência disso e preferiria não sofrer tanto. O que Maria Rita nos propõe é enxergar a depressão para além dos aspectos clínicos. Enxergar também como sintoma da sociedade em que vivemos. Como a ótima psicanalista que é, o que ela nos propõe é ouvir. Neste caso, ouvir o que a depressão tem a nos dizer quando escutada como sintoma social, como expressão de um mal-estar no mundo.

Os medicamentos podem fazer enorme diferença nas depressões graves num primeiro momento, para arrancar da apatia e possibilitar uma elaboração dessa dor que permita lidar com a vida de uma forma menos paralisante. Inclusive para romper com o imobilismo e buscar uma escuta pela psicoterapia ou pela psicanálise. Os medicamentos antidepressivos têm sua hora, seu lugar e sua importância. Mas acreditar que a medicação resolve tudo é calar a dor de quem a vive. E, no âmbito social, é ignorar o que ela diz sobre o que há de torto em nosso mundo.

Afirmar que a indústria farmacêutica resolve tudo é silenciar o impossível de ser silenciado, como prova a escalada das estatísticas da depressão. Na esfera social, significa dizer que é uma ótima vida correr desde que acorda até a hora de dormir, sem ter um minuto sequer para elaborar o que de bom e de ruim viveu naquele dia. Sem tempo para viver a experiência. Ou, como diz Maria Rita, vivendo no tempo do Outro.

Acreditar que a epidemia mundial de depressão pode ser erradicada com pílulas é afirmar que no nosso mundo nada falta. E um pouco mais grave que isso: é acreditar não apenas que é possível atingir uma vida em que nada falte, como atingi-la é uma mera questão de adaptação, pró-atividade e saúde.

No âmbito do indivíduo, tratar a depressão apenas com medicamentos é tornar ilegítima a sua dor. É dizer ao depressivo que o que ele sente não merece ser ouvido porque é produto apenas de uma disfunção bioquímica. É reforçar a crença de que o depressivo não tem nada a dizer sequer sobre ele mesmo. É cristalizar o estigma. Sem contar que tentar calar os sintomas da depressão à custa de remédios leva ao embotamento da experiência, ao esvaziamento da subjetividade. O que se sente é silenciado – e não elaborado. E, ainda que alguém achasse que vale a pena se anestesiar da condição humana, o efeito do remédio, como bem sabemos, é temporário.

Para algumas pessoas, encontrar médicos que resolvem tudo apenas com pílulas vai ao encontro de suas próprias crenças – e de sua necessidade de proteção. É mais fácil acreditar ser vítimas de uma doença, uma disfunção que está fora deles, a pensar que é um pouco mais complexo e mais difícil de lidar do que isso. É mais fácil do que aceitar que ele, como sujeito psíquico, está implicado neste mal-estar. Eu tomo remédio e não preciso pensar que algo me incomoda. Eu engulo uma pílula e não preciso lidar com a inadequação que me faz sofrer.

É possível compreender que, para quem já está na contramão do mundo e é visto muitas vezes como um estorvo, ajuda não ter ainda mais essa “culpa”. Tranqüiliza pensar que aquela dor que está sempre ali foi causada por uma disfunção involuntária dos neurotransmissores. E que pode ser resolvida com um comprimido.

O problema é que a realidade mostra que não é tão simples assim. Quem já fez tratamento com antidepressivos sabe que “curar” uma depressão não é o mesmo que tratar de uma micose ou mesmo de uma pneumonia. Não basta tomar remédio: é preciso expressar a dor, é necessário elaborar o sofrimento e, em geral, mudar a vida ou a forma de olhar para a vida e para si mesmo.

Ao conversar com minha filha, também psicanalista, sobre esse tema, ela fez um comentário que cabe neste contexto. “É curioso como os filmes de ficção científica sempre usaram aquela imagem terrorífica de seres humanos levando uma injeção na nuca e se tornando embotados. Isso era assustador e nos assustava”, disse. “Agora, o que assustava passou a ser a vontade das pessoas. Elas querem tomar uma pílula, ou uma injeção na nuca, e ficar embotadas.”

Maria Rita sugere que vale a pena para todos – e não apenas para os depressivos – pensar o que a depressão está nos dizendo sobre nosso mundo. É isto ou continuar assistindo, impotentes, ao crescimento da epidemia, que atinge não apenas adultos, mas adolescentes e crianças, cada vez mais cedo. É preciso prestar atenção nesse mal-estar no mundo, escutá-lo, de verdade e com verdade, sem cair nos contos de fadas contemporâneos que transformam todos os monstros em déficits bioquímicos. Ao contrário de todas as profecias, a indústria farmacêutica não vai nos salvar de uma vida sem vida.

O livro de Maria Rita Kehl é complexo e vai muito além destas minhas primeiras interpretações. Uma das questões mais originais é a relação entre a depressão e o tempo. O depressivo seria também aquele que se recusa a se inserir no tempo do Outro. O nome do livro – O Tempo e o Cão – vem da experiência pessoal da psicanalista, ao atropelar um cachorro na estrada. Ela viu o cachorro, mas a velocidade em que estava a impedia de parar ou desviar completamente dele. Conseguiu apenas não matá-lo. Logo, o animal, cambaleando rumo ao acostamento, ficou para trás no espelho retrovisor.

É isso o que acontece com as nossas experiências na velocidade ditada pela nossa época. Diz Maria Rita: “Mal nos damos conta dela, a banal velocidade da vida, até que algum mau encontro venha revelar a sua face mortífera. Mortífera não apenas contra a vida do corpo, em casos extremos, mas também contra a delicadeza inegociável da vida psíquica. (...) Seu esquecimento (do cão) se somaria ao apagamento de milhares de outras percepções instantâneas às quais nos limitamos a reagir rapidamente para em seguida, com igual rapidez, esquecê-las. (...) Do mau encontro que poderia ter acabado com a vida daquele cão, resultou uma ligeira mancha escura no meu pára-choque. (...) O acidente da estrada me fez refletir a respeito da relação entre as depressões e a experiência do tempo, que na contemporaneidade praticamente se resume à experiência da velocidade”.

Por coincidência, estava zapeando na TV ontem à noite (domingo), quando encontrei a psicanalista no Café Filosófico da TV Cultura, um dos melhores programas da TV aberta. Lá, ela fez algumas considerações muito interessantes. Anotei duas delas para acrescentar a esta coluna. “Nos dizem que ‘tempo é dinheiro’. Ora, tempo não é dinheiro. Dizer que tempo é dinheiro é uma violência”, afirmou Maria Rita. “Tempo é o tecido de nossas vidas”. E um pouco mais adiante: “Em qualquer sociedade, o poder se instaura por alguma forma de controle do tempo”.

Quem quiser ler o livro de Maria Rita Kehl precisa saber que é um livro difícil. Não se lê fácil como uma daquelas obras de auto-ajuda. Exige tempo, parada, reflexão. Para quem é leigo, é preciso ler e reler alguns trechos, voltar. Talvez até pular algumas partes que, depois de ler e voltar e reler, ainda assim não alcançamos. Mas vale todo o esforço.

Aprendi algo sobre isso, na semana passada, ao ouvir Benjamin Moser, autor da recém-lançada (e excelente!) Clarice, (CosacNaify, 2009), uma biografia de Clarice Lispector. Ele contou que os livros que mais gosta da escritora são os mais difíceis, aqueles que teve de ler para escrever a biografia, e não os primeiros que leu e compreendeu de imediato. Então, disse algo mais ou menos assim: “Os escritores têm de nos alcançar, mas nós também temos de alcançar os escritores”.

Achei genial. E acho que é isso. Vale a pena essa busca para alcançar alguns escritores e suas vozes a princípio obscuras. Alcançar alguém é sempre uma experiência rica – e intransferível. O livro de Maria Rita Kehl, assim como os livros mais estranhos de Clarice Lispector, vale porque ao final deste esforço há uma voz original, dissonante de todas as mesmices que ouvimos – e eventualmente repetimos.

Para mim, que acordo todos os dias – e especialmente na segunda-feira – pensando em como não sentir mal-estar em um mundo tão brutal, que exige uma velocidade que me rouba a vida, fez todo o sentido. Só consigo viver por que a cada dia minha questão crucial não é me adaptar a um tempo que não é o meu. Mas encontrar formas de me recusar a viver segundo valores que para mim não fazem sentido. É esta busca – e esta insubordinação – que me mantém em pé, ainda que cambaleando, às vezes, como o cachorro atropelado por Maria Rita, e até caindo, de tempos em tempos.

Dias atrás, ao conversar com meu amigo Toco Lenzi, um homem que como poucos recusa os valores e a velocidade desta época, ele me contou uma história de sua última passagem pelo Saara, na Mauritânia, que cabe aqui. Toco atravessa o Saara a pé, da Mauritânia a Tunísia, em etapas e sem nenhuma pressa, com nenhum outro objetivo além de viver a experiência de atravessar o Saara a pé. Eu o acompanhei na primeira parte desta jornada para escrever um livro que ainda está no começo.

Toco conheceu um tuaregue que havia deixado o Saara e vivido – muito bem – na Europa. Apesar do que teria sido considerado um sucesso pela maioria de nós, ele resolveu voltar ao deserto e ao antigo modo de vida. Toco perguntou a razão. Ele respondeu: "Vocês têm relógio, nós temos tempo".

Endereço original : http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI107441-15230,00.html

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O Fator X dos Judeus.


Cinquenta anos de petróleo e de ilimitados recursos, dezenas de países e milhões de cidadãos, não foram suficientes para dar um só Premio Nobel ao mundo. Cinquenta anos de Israel, com escassa população e recursos limitados, deram (ao mundo) mais de uma dezena.


Calmos, todos quietos. Que não se assuste Maruja Torres nem toda a corte dos que martelam os hereges israelenses e que habitam nas esquinas do dogmatismo progressista. Este artigo não vai ao Oriente Médio, talvez porque o verão, apesar de suas sombrias notícias, resiste a abandonar as boas intenções. Ademais, a persistente lógica perversa da maldade terrorista cai por seu próprio peso, mais além das tentativas que alguns têm em demonizar tudo o que cheira a ocidental, e perdoar paternalmente o que se cozinha nas montanhas onde cavalgam os novos Almanzor1. Em todo este denso e complexo conflito, entre uma ideologia niilista totalitária, com vocação imperial, e o código ético-político da modernidade, há os que são tão anti-ocidentais, que acabam sendo antimodernos. E por modernidade entendo os valores históricos que se consolidaram num modelo de sociedade livre. Para dizê-lo com um símile da própria colheita que me parece simpático: há os que vêem um padre católico e lhes sai um eczema, mas se vêem um imã nas montanhas do Líbano, têm um orgasmo. Imagine-se a histeria se vêem um rabino...

Dizia que o artigo era de outra coisa. Na quinta-feira passada, nesse edifício mágico de Puig i Cadafalch que hoje abriga a Casa Ásia, vivemos uma estranha e feliz tarde de verão. O professor de ciências políticas Xavier Torrens e Jaime Huberman, porta-voz da comunidade judaica Bet Shalom da Catalunha, convidaram-nos a refletir sobre o "fator X dos judeus", talvez inspirados por esse estimulante programa musical que faz sucesso no Quatro. Que fator cultural, religioso, histórico, inclusive até genético poderia explicar as surpreendentes cifras que rodeiam os inumeráveis escritores, pensadores, diretores de cinema, músicos, criadores de todo tipo que surgiram do povo judeu? Que um grupo humano que representa menos de 0,2% da população mundial tenha dado à humanidade mais de 20% dos prêmios Nobel, entre eles alguns dos últimos, está fora de toda estatística e, certamente, de toda lógica. Chaves na literatura mundial, com alguns eventos no século XX que marcaram a fogo gerações inteiras — com Marcel Proust à frente —,
também foi a contribuição judaica a que assentou as bases do pensamento moderno. A anedota resume isso de forma magnífica: um dia, um judeu subiu a montanha e, ao retornar, assegurou: "Deus é a verdade, e a verdade está na lei". Chamava-se Moisés. Séculos depois, outro judeu asseverou: "A verdade é Deus, e Deus é amor". Chamava-se Jesus. Depois apareceu outro que, sem amor divino, declarou que a verdade era o dinheiro. Era um tal de Karl Marx. Depois chegou Freud e situou a verdade algo mais abaixo do bolso, na parte crucial entre as pernas. E, para fechar o círculo, apareceu o judeu Einstein e varreu tudo: "A verdade é relativa". Nada da filosofia, da matemática, da física, da medicina, da literatura, da música, nada relevante no terreno do pensamento, da ciência e da criação pode-se explicar sem a extraordinária contribuição do povo judeu. E sempre foram muito poucos. E sempre foram perseguidos como ratos.

Fator X? Lá estávamos, numa sala cheia, com gente pelos corredores e o chão servindo de cadeiras, tentando dar resposta a um enigma particular. O historiador Joan Culla analisou a contribuição política, Xavier Torrens se atreveu com a criatividade, Vicenç Villatoro com a literatura, eu apurei algumas idéias sobre a contribuição ao pensamento, o rabino Ariel Edery batalhou com a superação na adversidade e, com a ajuda de Jaime Huberman, que nos acolheu nesse espaço de liberdade e cultura que são as pessoas do Bet Shalom, saíram algumas idéias apresentáveis. Este é o aperitivo de uma reflexão coletiva apaixonante e, com certeza impossível. O fator não é genético. No povo judeu há de tudo, como em todas as farmácias, desde cérebros brilhantes a gente de limitada ambição mental, mesmo que a porcentagem de gênios esteja fora de toda curva estatística. O fator não é religioso, já que parece que os deuses só iluminam os caminhos quando alguém acende as velas. Tampouco parece ser um fator histórico, ainda que a carga pesada de sua difícil história tenha conformado um instinto sobrenatural de superação. Xavier Torrens falou do valor do estudo. Não em vão, os judeus foram durante séculos, o único povo de nossa cultura que era alfabetizado. Mas também estudam os fundamentalistas do Paquistão, de maneira que o fator diferencial não é estudar, porém o que se estuda... Pessoalmente, situei a questão na singular cultura libertária e antidogmática de um povo que inclusive discute com seu próprio Deus, povo do livro, vinculado à palavra e à reflexão. Foram eles que, há milhares de anos, escreveram um código de leis que ainda marca as pautas atuais da convivência. E foi o rabino Edery quem selou a reflexão. Talvez o fator X seja a vida judaica, o conjunto de valores que caracterizam suas complexas amarras culturais, nas quais, a veneração pela vida, a superação individual e o compromisso com a cultura têm sido seu fato diferencial durante séculos. Sem dúvida, não é insignificante o esforço econômico que Israel dedica à pesquisa científica e médica — num país que se vê obrigado a gastar 60% de seus recursos com a defesa —, mas isso só explicaria o fenômeno nas últimas décadas. Que fique este dado para contra-argumentar alguns ódios: 50 anos de petróleo e recursos ilimitados, dezenas de países e milhões de pessoas, não deram um só prêmio Nobel ao mundo. 50 anos de Israel, com escassa população e recursos limitados, deram mais de uma dezena.

Este arti
go não pretende responder ao enigma, mas me pareceu interessante traçá-lo, inspirada por aquela feliz tarde de verão. E nem tanto para animar a busca das respostas, como para recordar que quando falamos dos judeus, falamos da cultura, do pensamento, da ciência. Nenhum povo contribuiu tanto sendo tão pequeno. Entretanto, o principal não é o agradecimento. O principal é repetir, insistentemente as maldades do preconceito e do desprezo.




Pilar Rahola: El País. Madrid
Tradução: Szyja Lorber

terça-feira, 6 de outubro de 2009

5770! Vai Ser Um Ano Abençoado!

Kiriat Motzkin, Haifa, litoral norte de Israel.
Agora, 19:20 h.
Estamos no meio da semana de Hag HaSucot, ou Festa das Cabanas. Como a maioria das festas do Calendário Judaico, Sucot também é uma festa que originalmente tinha um carater agrícola. Ela, além de seu significada e simbolísmo religioso, marcava e marca o fim do verão e o início do outono.
Por isso, agora, nesse instantante, esta chovendo!
A seguir um vídeo que gravei agora da janela do meu apartamento:





E o que há de tão importante nisto.
Pra quem vive no Brasil, pelo menos na parte do Centro Sul, deve parecer estranho o que eu vou dizer, mas aqui em Israel não chove durante todo o verão. E isso não ocorre porque haja uma seca ou estiagem, mas é este o processo natural da região. Entre abril e setembro não cai uma única gota de chuva em todo o país. Porém quando chega o inverno isso muda, e durante os próximos quatro a cinco meses, pode chover e muito.
Toda a agricultura e sobrevivência do país dependem destas chuvas. O Mar da Galiléia (Yam Kinéret), o rio Jordão, os poços de água espalhados pelo país, dependem única e exclusivamente destas chuva, que este ano começaram a cair bem cedo!
Só pra se ter uma idéia da importância da chuva pra nós, ontém foi um dia especial para rezar pelas chuvas deste ano em várias sinagogas espalhadas pelo norte do país! Esse é um ritual que se repete todos os anos, porque sempre há o temor de uma seca ou estiagem muito forte, que seriam devastadores para a economia e qualidade de vida no país!
Se bem que o abastecimento de água potável, em parte é produzido pelas modernas e gigantescas uzinas desanilizadoras. Hoje, Israel possui a mais avançada tecnologia de desalinização no mundo. Porém essa é uma água cara, que não pode ser usada para regar jardins, lavar ruas ou para a irrigação agrícola.
Assim, cada ano que passa, continuamos dependentes das Bençãos Divinas, que segundo o Tanach (a Bíblia), D´s, Bendito Seja o Seu Santo e Grande Nome, transmite em forma de chuvas!
Na sequencia, uma música que é como uma oração para que venham boas chuvas no outono!



segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Um Árabe que Ama o Hebraico! Surpreendente!

Vou colar aqui uma entrevista que um Poeta e Erudito Druso Israelense Nayim Araidy deu ao Professor Moacir Amâncio, professor de Literatura e Língua Hebraica da USP.


Sobre o infinito e a
língua hebraica
O poeta e professor de literatura Naim Araidy é o mais conhecido escritor árabe de língua hebraica. Nascido dois anos depois da criação do Estado judeu, ele mergulhou, na infância, nas águas profundas do idioma bíblico, embora em sua casa só se falasse árabe. Moacir Amâncio entrevistou-o, em sua aldeia natal


O professor e poeta Naim Araidy vive uma situação nova para um árabe druso, cidadão isralense, nascido na aldeia de Maghar em 1950, portanto dois anos após a independência do país. Sua língua materna foi evidentemente o árabe, mas esse idioma não seria o primeiro modo de expressão intelectual e artística usado por ele, e sim o hebraico. Hoje, é um professor conhecido em Israel, onde tem um programa de televisão, escreve em jornais, publica livros e ensina Literatura Hebraica na Universidade de Haifa. Sua tese de doutoramento, na Universidade Bar Ilan, provocou polêmica: o tema foi o poeta Uri Tzvi Grinberg, que era repudiado pelos trabalhistas pois o julgavam de extrema direita, e a direita tendia a valorizar nele pontos ideológicos com os quais concordava. E sua poesia, de alta qualidade, ficava de lado. Araidy tem como preocupação central a literatura e a busca de sua qualidade acima de todas as outras coisas. Conheci-o em Israel, no começo de 2007. Araidy vive uma situação parecida com a de Franz Kafka, que era judeu tcheco e escreveu em alemão. Não só com a de Franz Kafka, mas com a de muitos outros autores judeus que, na Europa e outros continentes, optaram pela escrita em outro idioma, inclusive o hebraico, e não o local, ou materno. A diferença óbvia está no fato de que Araidy não é judeu, pertence à religião drusa, mas preferiu usar o hebraico em sua literatura. Há outros árabes que escrevem em hebraico, mas, segundo ele, só dois autores o escolheram como idioma de expressão artística integral. Ele e o tradutor, poeta e romancista Anton Schammas, radicado nos Estados Unidos e, ao que parece, distanciado do hebraico, que o consagrou como escritor em Israel, país com o qual tem sérias divergências políticas.

A existência literária de Araidy e Schammas (há outros autores árabes que usam o hebraico, como Sayed Kashua e Salman Masal'ha) não deve ser vista como uma aberração. Pelo contrário. Do mesmo modo que se dizia que Israel só seria um país normal quando tivesse seus próprios ladrões e prostitutas, pode-se dizer que o idioma hebraico só recuperaria a normalidade quando passasse a ser língua de expressão plena, utilitária e artística, também para cidadãos de outras etnias que fazem parte da população israelense. A propósito de uma possível utopia pós-moderna com ecos cabalísticos do tikun, veja-se o poema intitulado "Sobre a pergunta por que eu escrevo em hebraico", aqui traduzido, com mais duas peças de sua autoria. Observe-se que, caso o leitor nada saiba da biografia de Araidy, não terá idéia de que se trata de um não-judeu. O que ocorre é um raro encontro de humanidades: o outro é o mesmo - haverá sentido político mais elevado que isso?

Araidy também escreve em árabe, mas, como conta, isso veio depois do hebraico. Nesta entrevista, montada a partir de declarações fornecidas por Araidy por correio eletrônico, entre uma visita a Pequim e participação no festival de poesia de Edinburgo, ele fala sobre sua relação de amor incondicional com o hebraico e com poesia.

Revista 18 Conte-nos um pouco sobre o que motiva sua poesia...

Naim Araidy Para mim é muito difícil a pergunta "por que escrevo poesia", no geral. Talvez seja uma questão de ego muito grande. Eu me coloco no centro, e as coisas que escrevo ficam como uma herança coletiva. Desejo que isso se transforme num modo de expressão para todas as pessoas, a partir da esperança, talvez do anseio de que as pessoas se encontrem nela, na minha escrita. Eu sinto, de repente, que não estou sozinho; como que livre do isolamento, ou exorcizado - como numa unicidade com o outro quando eu sou o centro, o mensageiro. E, portanto, isso de novo me devolve ao ego.


O professor e poeta Naim Araidy vive uma situação nova para um árabe druso, cidadão isralense, nascido na aldeia de Maghar em 1950, portanto dois anos após a independência do país. Sua língua materna foi evidentemente o árabe, mas esse idioma não seria o primeiro modo de expressão intelectual e artística usado por ele, e sim o hebraico. Hoje, é um professor conhecido em Israel, onde tem um programa de televisão, escreve em jornais, publica livros e ensina Literatura Hebraica na Universidade de Haifa. Sua tese de doutoramento, na Universidade Bar Ilan, provocou polêmica: o tema foi o poeta Uri Tzvi Grinberg, que era repudiado pelos trabalhistas pois o julgavam de extrema direita, e a direita tendia a valorizar nele pontos ideológicos com os quais concordava. E sua poesia, de alta qualidade, ficava de lado. Araidy tem como preocupação central a literatura e a busca de sua qualidade acima de todas as outras coisas. Conheci-o em Israel, no começo de 2007. Araidy vive uma situação parecida com a de Franz Kafka, que era judeu tcheco e escreveu em alemão. Não só com a de Franz Kafka, mas com a de muitos outros autores judeus que, na Europa e outros continentes, optaram pela escrita em outro idioma, inclusive o hebraico, e não o local, ou materno. A diferença óbvia está no fato de que Araidy não é judeu, pertence à religião drusa, mas preferiu usar o hebraico em sua literatura. Há outros árabes que escrevem em hebraico, mas, segundo ele, só dois autores o escolheram como idioma de expressão artística integral. Ele e o tradutor, poeta e romancista Anton Schammas, radicado nos Estados Unidos e, ao que parece, distanciado do hebraico, que o consagrou como escritor em Israel, país com o qual tem sérias divergências políticas.

A existência literária de Araidy e Schammas (há outros autores árabes que usam o hebraico, como Sayed Kashua e Salman Masal'ha) não deve ser vista como uma aberração. Pelo contrário. Do mesmo modo que se dizia que Israel só seria um país normal quando tivesse seus próprios ladrões e prostitutas, pode-se dizer que o idioma hebraico só recuperaria a normalidade quando passasse a ser língua de expressão plena, utilitária e artística, também para cidadãos de outras etnias que fazem parte da população israelense. A propósito de uma possível utopia pós-moderna com ecos cabalísticos do tikun, veja-se o poema intitulado "Sobre a pergunta por que eu escrevo em hebraico", aqui traduzido, com mais duas peças de sua autoria. Observe-se que, caso o leitor nada saiba da biografia de Araidy, não terá idéia de que se trata de um não-judeu. O que ocorre é um raro encontro de humanidades: o outro é o mesmo - haverá sentido político mais elevado que isso?

Araidy também escreve em árabe, mas, como conta, isso veio depois do hebraico. Nesta entrevista, montada a partir de declarações fornecidas por Araidy por correio eletrônico, entre uma visita a Pequim e participação no festival de poesia de Edinburgo, ele fala sobre sua relação de amor incondicional com o hebraico e com poesia.

Revista 18 Conte-nos um pouco sobre o que motiva sua poesia...

Naim Araidy Para mim é muito difícil a pergunta "por que escrevo poesia", no geral. Talvez seja uma questão de ego muito grande. Eu me coloco no centro, e as coisas que escrevo ficam como uma herança coletiva. Desejo que isso se transforme num modo de expressão para todas as pessoas, a partir da esperança, talvez do anseio de que as pessoas se encontrem nela, na minha escrita. Eu sinto, de repente, que não estou sozinho; como que livre do isolamento, ou exorcizado - como numa unicidade com o outro quando eu sou o centro, o mensageiro. E, portanto, isso de novo me devolve ao ego.

18 Quais são os temas principais de sua poesia?

NA Sobre o que eu escrevo? Escrevo sobre mim mesmo, sobre você, sobre todos nós, eu escrevo sobre coisas que não tenho outro modo de expressar; que estão fundo em mim. Sobre as coisas que mais me atemorizam; sobre os assuntos considerados irregulares, porque a norma os repele. Como um grito, pois tenho medo da morte e das doenças, da solidão e do sofrimento, da ausência do amor. Escrevo sobre assuntos que causam vergonha, porque estão fora do que é aceito, os valores e os comportamentos - como sobre minha vontade e minha capacidade de amar todo dia outra mulher; também nesta época em que passei da idade permitida, que me leva a fermentar tantas possibilidades. E eu escrevo sobre a beleza dolorosa que é ser um homem, no sentido amplo da palavra. Sobre o que é mais humano, sobre minhas fraquezas que são o medo, a solidão, o ciúme, o sofrimento e sobre a falta de piedade no mundo.

18 O que, em sua opinião, é uma característica própria da poesia?

NA A poesia é o modo de expressão para o humano que há em nós, e ela faz da dor humana algo belo, estético, para que possamos vivê-la de novo, numa forma renovada, aceita e bonita. A poesia é arte como a música, como o desenho e como a escultura. Mas uma arte mais tocante,dona de uma força sem igual. Ela não lida com as cores puras, com o som puro ou com a modelagem de material. O meio de expressão dela são as palavras, esta língua não é um meio técnico, por mais que seja belo e especial. A língua é um presente para o que está contido em toda a história humana, tanto a material quanto a espiritual, e ela inclui o mito, a religião e a filosofia, e, em função de sua própria essência, a poesia utiliza-se da língua e do que existe nela e do que é possível introduzir nela. Ela toca a língua, acaricia e cria com ela relações mais íntimas, e também sabe às vezes explorá-la, e ela precisa disso.

18 Parece que uma só língua não foi suficiente para o senhor...

NA A mim foi dado um privilégio que muitos não receberam. Escrever em dois idiomas, hebraico e árabe, sim, nessa ordem. Comecei com o hebraico e só depois com o árabe. No início, por causa de pressão; depois, por causa de amor e dedicação.

18 Não causa espanto o fato de alguém que tem uma língua tão difundida quanto o árabe optar por outra, tão reduzida em número de falantes?

NA O que fazer se eu sou árabe, druso e nasci no Estado de Israel, e tenho um pai que queria que seus filhos "fossem cultos como os judeus"? Ele me mandou para escolas judaicas. E eu assenti como quem é chamado à Torá. Como seria possível o contrário, com a vontade inamovível do pai árabe, druso, típico oriental, conforme a sociedade patriarcalista?

18 E como foi a sua iniciação na língua hebraica?

NA Nos primeiros dias de meus estudos na escola judaica, a senhora Steiner, a professora de Literatura Hebraica, me disse: "Escute menino! Com um hebraico assim você não pode agüentar a escola!" E a senhora Steiner não sabia em que estado de pânico me deixou. Acaso era possível voltar àquele pai e dizer a ele que eu não podia estudar lá? Aquele mesmo pai que enviara seu filho a fim de se instruir e voltar como médico para a aldeia? Quem sabe, talvez se satisfizesse também com um advogado, mas abaixo disso não havia o que dizer. Não podia voltar. Eu precisava enfrentar o medo tanto na expectativa da senhora Steiner quanto na de meu pai. A propósito, estranho que metade da nossa vida nós nos esforçamos para responder às expectativas dos pais, e a segunda metade nos esforçamos para responder às expectativas de nossos filhos. De um lado, é claro que não temos tempo para nós mesmos, e de outro lado, não nos livramos do temor diante da possibilidade de não sairmos nem daqui nem dali. Estranho quanto nós não pensamos sobre isso - e este ainda é assunto para poesia. E no final das contas, não estudei Medicina e de advocacia eu não gostava de jeito nenhum. No entanto, me transformei em professor de Literatura Hebraica e em criador na língua hebraica, com recepção bastante honrosa, mas não sem provo­cações tanto de um lado como do outro.

18 Poderia dar um exemplo de provocação?

NA Um dia, quando estudava na Universidade Bar Ilan, fiquei surpreso ao ouvir, justamente de um dos professores mais respeitados, que não acreditava que um criador pudesse escrever em língua que não a língua-mãe. A coisa me doeu, e então perguntei de modo desafiador o que dizer sobre os poetas judeus que escreveram em árabe na época pré-islâmica e na Idade Média, e que são considerados poetas bilíngües? E o que dizer sobre Ionesco, o romeno que é considerado um grande escritor francês? E o que dizer de Taher ben Jelloun, e o que dizer do escritor gigantesco que era judeu de origem tcheca que escreveu em alemão, que é Franz Kafka? O que dizer dos maiores da nova poesia hebraica cuja língua-mãe não era o hebraico?! E a lista não é curta. A mim foi dado o privilégio de escrever na língua sagrada, a língua do primeiro monoteísmo, que fundou o novo humanismo há cerca de cinco mil anos. Uma vez, visitou-me em casa um escritor quirguiz conhecido, que escreve em russo, Chingiz Aitmatov, e ele me perguntou como eu me sentia como um poeta árabe que escreve em hebraico. Respondi a ele de forma muito sofisticada: eu disse, "quando escrevo um poema de amor em hebraico, me sinto como o rei Salomão, e quando escrevo um poema de lamento, me sinto como o Rei David". E o sr. Aitmatov fez que sim com a cabeça, como se invejasse tudo o que eu podia escrever na língua sagrada.

18 Como o senhor vê o hebraico atual?

NA O novo hebraico é a continuação direta do hebraico bíblico. O idioma possui uma carga mitológica, social e espiritual e também estética que não é igual à de nenhuma outra língua. Essa língua sagrada, em outra de suas dimensões, confere àqueles que escrevem nela uma tradição completa de humanidade, protesto e perguntas, por mais duras que sejam, que são o dicionário de todo poeta verdadeiro. A humanidade que modelou nosso caráter humano começou com o profeta "pesado de boca" que tartamudeava (NR: Moisés, que era gago); veio com o rei que se apaixona e envia o marido de sua amada para ser morto a fim de ficar com a viúva. A mentira bem-intencionada do maior dos patriarcas. A história da Akedá, do sacrifício de Isaac, a esterilidade, as mulheres ciumentas e o que não? É realmente um privilégio escrever em hebraico.

18 E a escrita em árabe?

NA Falarei de modo resumido sobre a escrita em árabe. Apesar da riqueza dessa língua e da sua beleza e maleabilidade, há nela um grande problema, que é o conservadorismo que se apoiou na tese central do profeta do Islã, Mohammed. O profeta partiu contra a escrita de poesia porque a poesia se defronta com a alma humana e os problemas humanos, pois é ofício da religião ocupar-se deles. Ele argumentou que para cada poeta há um satã que lhe domina a escrita e isso é na essência uma heresia. Desde então houve um desvio na poesia árabe e esta dirigiu sua criatividade para a técnica verbal. Uma longa tradição e o conservadorismo como esse que se enraizou na consciência do público árabe tendem a repudiar qualquer mudança que tenha força para devolver a poesia à criatividade e ao enfrentamento com nossa humanidade. Contudo, ergueu-se um movimento muito importante, moderno e pós-moderno, que não renuncia à criatividade, apesar da oposição a isso. Eu me alinho com esse movimento. ■

Moacir Amâncio, professor de Língua e Literatura Hebraica da USP, é autor de Contar a Romã e Óbvio (poemas)

Escrever em hebraico e escrever hebraico

Escrever em hebraico significa utilizar o idioma em função dos meios de comunicação, somente. Quer dizer, aproveitar-se da língua técnica para determinadas necessidades. Seja para necessidades cotidianas, no supermercado, no escritório, no jornal, ou mesmo para a necessidade de expressar idéias e posições na imprensa, nos periódicos e também livros, como fazemos em Israel também os cidadãos árabes. Estes últimos cresceram no uso da língua hebraica quando parte deles tentou traduzir a história de suas vidas para a prosa, ou até traduzir suas emoções para poesias em hebraico, como toda tradução para outro idioma.

Mas escrever hebraico é outra coisa; poucos fazem isso entre os judeus, e há só dois casos entre os não-judeus. Um é Anton Schammas, que sumiu da arena e interrompeu sua escrita hebraica, por motivos políticos, porém sobretudo por motivos religiosos cristãos, ao lidar com uma temática cristã: extirpar o judaísmo da língua hebraica. O segundo sou eu.

Parece-me que a escrita hebraica não tem comparação com outras línguas tendo em vista sua origem tríplice, de povo, religião e idioma, conjuntamente. A língua carrega a etnia, a religião e a pátria, ainda quando esta última esteja ausente. Em determinadas épocas, ela continuou presente na língua. E com a inovação do estabelecimento do Estado de Israel e o fato de o idioma hebraico ter se tornado uma língua falada, não se extirparam dela aquelas três bases. A laicização da língua hebraica conferiu a ela uma dimensão midiática, mas não extirpou o judaísmo dela, sua judaicidade e sua identidade israelense.

A língua hebraica se engrandeceu, já nos primórdios de seu nascimento, quando criou o mundo e seu conteúdo, e o ordenou de acordo com critérios e princípios éticos dela. Ela criou mitos e os transformou em realidade. Chegou ao auge de sua força no Monte Sinai, lá se misturou à coluna de fogo que guarda sua brasa, como a sarça ardente que não é consumida, e quem olhar é ferido de morte, pois não O verá homem e viverá. Isso não existe em nenhuma outra língua.

E nessa língua está escrito o lamento mais belo da história da humanidade; está escrita a poesia de amor mais bonita da cultura humana, e Salomão esplendeu ao falar em seus provérbios até chegar ao auge dos auges, no Kohelet ben David (Eclesiastes).

Nada há de novo sob o sol, não poderá escrever hebraico quem não experimentou a dimensão do Monte Sinai, e quem não se identifica com a língua na sua condição triádica. Escrevem hebraico somente aqueles que se sentem interior e exteriormente dentro da profundeza dessa cultura, só quem é capaz de amá-la e de se sentir membro da casa dentro dela. Deve-se lembrar e distinguir, mil vezes, que é preciso fazer uma clara distinção entre quem escreve hebraico e quem escreve em hebraico.

Naim Araidy

Poemas

Tornei-me um homem mais equilibrado
Tornei-me um homem mais equilibrado
no passar dos quarenta em minha vida
eu digo
tornei-me um homem equilibrado.


Estranho
mais não poderei dizer:
talvez juntemos todas as pedras jogadas
nos montes de Jerusalém
para construir uma cidade outra
e não nos montes de Jerusalém.

Eu sou José
Eu sou José o sonhador
e a mulher de Potifar é só lenda
enfureci meus irmãos como é preciso
só em sonho
e não no dia-a-dia como se conta
amei a mulher de Potifar até o céu.
E sobrei
dentro do sonho.

Sobre a pergunta por que eu escrevo em hebraico
Para criar o mundo novamente
e as coisas sejam outras, veramente
outras, e ver que isso é bom.
E dar o mundo ao homem na bandeja
de ouro ou prata e fazer o mais que seja
preciso para trazer o bom e o melhor
a fim de que não comam os pais do verde, mas
do maduro. E anular, quanto possível for,
quem diz ser impossível dar a Deus
o que é de Deus e dar toda a mulher ao César.

E para escrever poemas sobre poesia não escrita
e elegias não sobre a morte, mas sobre o desperdício
da nova criação e não criar
o macho antes, primeira sempre a mulher.

Tradução de Moacir Amâncio

sábado, 3 de outubro de 2009

Festa das Cabanas! A Festa dos Paradoxos!

Hoje começou a festa de Sucot, que significa "Cabanas". Aqui em Israel é uma das festas mais animadas, de um clima muito festivo. Por ser a festa que marca o início do outono e do período das chuvas, todos sentem um clima de esperança, de otimismo, já que as chuvas aqui são impresindíveis e já que somente chove entre setembro e março, e depois disto não cai uma única gota sequer.
Basicamente a festa se resume em construir uma cabana ( e o País se reveste delas por todas as partes), e fazer algumas refeições no seu interior. A idéia é lembra o período que nosso Povo peregrinou durante 4o anos no deserto antes de se fixar em Israel. Dentro da Sucá, se realiza refeições festivas, onde são abençoados vários produtos típicos desta época. No Beit Haknésset (Sinagoga), se realizam agumas serimonias especias (que não vou detalhar aqui), mas a mais significativa é a do Lulav, que é um conjunto de quatro espécies especiais da Terra de Israel, e que devem ser usadas, e "movidas" (agitadas) durante um certo período do Shaharit (reza matutina).






Pelo vídeo dá para se ter uma idéia do clima de festividade! Porém existe algo que parece não combinar bem com toda essa alforia. É sabido que durante a reza nos dias de festa, se lêem trechos especiais do Tanach (Bíblia Judaica que compreende o chamado "Antigo Testamente"). Geralmente o texto combina muito bem com o clima da festa. Por exemplo, em Yom Kippur (Dia do Perdão) lê-se (além de outras leituras da Torá, o livro do Profeta Yoná (Jonas). Porquê?
A resposta é simples. Yom Kippur fala de arrependimento e perdão. O livro do Profeta Yoná conta a históira do Povo de Nínive, que se arrependeu e foi perdoado por D´s!
Porém em Sucót, que é uma festa de alegria, foi escolhida pelos Rachamim para leitura, o livro de Kochélet (Eclesiastes)! O "estranho" é que o livro de Kohelete é um dos livros do Tanach que mais apresente uma visão pessimista da vida.

"Vaidade de vaidades! diz o pregador, vaidade de vaidades, tudo é vaidade." Ecles. 1:2

Salomão, que na juventude havia escrito "Cantares", um hino a beleza, ao amor e ao sexo; que na madurez escreve um livro de "Provérbios", crendo ter as diretrizes para uma vida de exito, mas chega na velhice e acredita que tudo foi em vão!

Vídeo com a leitura da Meguilát Kohélet (Livro de Eclesiastes) em hebraico.




Onde podemos encontrar o equílibrio para entendermos o paradoxo da alegria da festa de Sucot, com a Meguiláh escolhidas pelos nossos mestres, para ser lida na reza?

Por coincidência, acho que tive a resposta na prática, hoje, no primeiro dia da Festa de Sucot.
Um amigo meu me telefonou durante a semana e me convidou pra sair com ele e a esposa e um grupo de amigos pra comemorar o aniversário dele. O local escolhido, um Pub.
Eu tinha motivos para não ir, mas por ele decidi ir.
Chegamos lá, música muito alta, garotas muito pobres ( pobrezinhas, não tem dinheiro pra compra roupa! quase nuas, tadinhas!), cigarro normais e outros meios suspeitos, e alcool, muito alcool. Vodka, wisk, cerveja, run, arak, e a mistura delas todas!
O problema é que eu não posso tomar nem uma gota de alcool. Estou recebendo uma medicação que não pode em hipótese alguma ser misturada com alcool. Se tomo algo alcoolico, corro o grave risco de perder o fígado. Fumar eu não fumo. As garotas que nos acompanhavam, ou eram casadas ou feias demais pra serem encaradas sem um pouco de "bardal" no sangue. Resultado, foi horrível. Estar alí, no meio daquela baderna sem uma gota de alcool no sangue, ma fazia sentir como se eu estivesse num manicômio! Todo mundo prá lá de bagdá e eu com cara de freira em festa de aniversário de sobrinho adolescente. Tinha uma mina lá que "adorava brasileiro". Ela morre por "conhecer" (sentido bíblico da palavra!) um brasileiro bem de perto, mas bem de pertinho mesmo! O problema é que o oposto não passava nem perto. Talvez depois de umas três horas enchendo a cara, e por amor a pátria e com a ajuda de um travesseiro(já que aqui não tenho bandeira do Brasil), desse para encarar, mas limpinho como eu tava, sem chance!
Resultado. Pedí desculpas pro meu amigo. Paguei minha conta (duas Pepsi's) e puxei o carro.
Onde quero chegar? Que assim como diz Shlomô HaMelech, "tudo não passa de uma grande vaidade". Até a diversão é uma ilusão. Pra se divertir, (pelo menos nesse contexto que eu estava), um tem que se "aditivar", senão não tem graça.
Parece que a intenção dos Rachamim (Sábios) não era ir contra a alegria (ao determinar a leitura do livro de Eclesiastes), mas sim fazer lembrar que a vida é como uma colcha de retalhos, e que nada deve ser levado ao extremo. Alegrar-se sim, afinal começam as chuva, a colheita, as frutas do outono, a Terra renasce, os rios brotam. Eretz Israel (Terra de Israel) engravida, e se prepara para dar a luz na Primavera ( como o Pessach - Páscua). Alegremo-nos! Porém!!! não nos esqueçamos. Alegria é só um lado da vida. Existem muitos outros que também devem ser cultivados, para se alcançar uma vida equilibrada e não nos arrependermos mais tarde, como se arrependeu o velho Shlomo HaMelech (Salomão).

Chag Sameach a Todos.





P.S.; O vídeo acima contém a música "Shlomit boná Suca" (Shlomit constrói uma cabana), que é a música símbolo da Festa de Sucot!

Rí Muito!

Na verdade, estava intencionando escrever sobre uma outra coisa, mas no caminho até acessar o Blogger, passei pelo site do Estadão, e na coluna "Os Hermanos", encontrei uma pérola! É um comercial Argentino, que faz sátira com eles mesmos tentando falar português. Rachei o bico, porque aqui em Israel eu sou uma ilha lusófona cercada de hispanoparlantes por todos os lados. Mas de vez em quando eles tentam soltar uma ou outra palavrinha em português. O Resultado, idêntico a este, vejam, vale a pena!

Muito bom, não é mesmo! Parabéns aos Hermanos pela criatividade e bom humor.

sábado, 4 de julho de 2009

Yareach - Shlomo Artzi

Como eu havia dito, quero às vezes postar uma ou outra música israelense por aqui. E por quê? Primeiro por que gosto e em segundo porque acredito que não há nada melhor pra se demonstrar partes de uma cultura do que a expressão musical da mesma. Lógico que a música não "expõe" toda uma cultura, porque cada sociedade tem infinitos tipos de expressões musicais, cada uma de acordo com um segmento dessa mesma sociedade, mas de qualquer maneira, se pode aprender muito.
Essa música que vou postar é de um cantor e compositor muito famoso em Israel, Shlômo Artzi. Ele já é um cantor consagrado que iniciou sua carreira pelos idos dos anos 60 e possui uma audiência em todas as faixas etárias, sendo apreciado pelos mais velhos, pelos adultos e pelos mais jovens também.
Yareach, na minha opinião é uma das mais lindas músicas dele. Fala das lembranças de alguém relacionadas a Lua (Yareach em hebraico).





Você também pode ver a letra e a tradução e a transliteração no blog Shirim em Português

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Frase do Dia!

" A vitória contada em detalhes se distingue muito pouco da derrota."

Por Jean Paul Sartre

Israel e Suas Curiosidades : Café!

Quando alguém decide imigrar, da maneira correta e legal, costuma antes fazer uma longa pesquisa pra saber as condições da nova vida que ele vai encontrar na nova sociedade.
Como minha imigração foi um projeto de longo prazo, tive tempo de me preparar psicológicamente e buscar conhecer ao máximo as diferenças que iria encontrar pela frente. Mesmo assim, não é possível prever tudo. Até porque nossa vida é cercada de milhões de coisas, hábitos, imagens, símbolos e sensações que não nos damos conta e não percebemos de maneira consciente, mas que fazem parte de nosso ser e de nossa vida.
Assim, ninguém jamais ao sair de seu país, poderia imaginar que um hábito tão simples como o de "tomar café" poderia sofrer uma mudança tão grande. Até porque no caso de alguns produtos de consumo básico, é sabido que se pode encontrá-los no mundo inteiro! Porém há uma questão aqui. Que todo mundo no mundo inteiro toma café, isso é ponto pacífico, mas COMO que se toma esse café, é uma outra questão.
No Brasil estamos mais do que habituados ao nosso querido café em pó, que tem que ser devidamente "passado" com água quente e filtrado, ou em coador de pano ou de papel. Raramente se toma café solúvel. Assim, sempre temos café no bule ou na garrafa térmica ou em alguma jarra especial para mantê-lo aquecido e fresco.
Bem, aqui em Israel não funciona assim e como sofri por isso.
O israelense em geral toma um outro tipo de café que não se encontra facilmente no Brasil, somente em casas árabes. É o café turco. Esse café tem o pó bem mais grosso que o nosso e é bem mais forte. Diferentemente de nós, o israelense não prepara o café antes em grande quantidade para serví-lo, mas cada pessoa prepara o seu próprio café individualmente. Como? Ele pega um copo (aqui é normal tomar café em copos de vidro e não em chícaras), coloca uma medida de pó de café segundo a sua preferência, acrescenta água quente e por último o açucar, mexendo bem e deixando baixar o pó, para depois tomá-lo.
No sul do Brasil e no interior de São Paulo eu sei que os vaqueiros, tropeiros e trabalhadores do campo as vezes faziam um café semelhante pela falta do coador, e era chamado de café de tropeiro. Mas isso nunca foi um hábito e sim uma improvisação. Aqui é o modo corrente.
Esse café é muito forte e conheço muita gente que veio da América do Sul e não se acostumou com ele. Alguns tiveram dor de barriga, outros cólicas e outros como eu, palpitações e insônia das brabas!
A segunda alternativa mais comum por aqui é o café soluvel. O problema é que ele tem um gosto horrível e em geral para se poder tomá-lo, é necessário acrescentar leite.
Por falar nisso, quando alguém aqui fala em nescafé, não esta falando na marca que nós conhecemos aí no Brasil, mas esta se referindo a tomar café solúvel com leite! Fiz muita confusão no começo, porque as pessoas me ofereciam café, e eu não queria o turco, mas o solúvel. Então elas me ofereciam nescafé e eu pensava que ia receber café solúvel preto, mas vinha com leite!
Uma outra alternativa é pedir o café expresso num Beit Café. Beit Café é o que chamamos de Cafeteria no Brasil. Aqui em Israel os Batei Café estão no lugar dos bares brasileiros. Eles não vendem bebidas alcoólicas, mas estão em cada esquina, shoppings, hospitais, faculdades, estações de ônibus e trens. O Beit Café é uma mania nacional.
No fim, como morro de saudades do cafezinho brasileiro, igual o que minha avó passava no coador de pano, quentinho e fresquinho, forte com pouco açucar. Igual aquele só quando voltar ao Brasil pra passear.
Enquanto isso não acontece, vou me virando com o café solúvel da Nestleh. É o mais próximo do que se pode chamar de café, pelo menos pra mim!
Por último, um comercial israelense da marca mais famosa daqui, da Elite. O enredo não se passa em Israel, mas na Península do Sinai, no Egito. Apesar de não estar traduzido ou legendado, fica como curiosidade.


Valores Relativos!



Esta charge foi publicada primeiramente no Jerusalem Post e depois traduzida e publicada no site "De Olho na Mídia". A mensagem é bem clara! Quando se trata de um crime perpetrado por outras nações, nada se comenta, mas qualquer atitude tomada pelos israelenses, ainda que não seja um crime em si, será fortemente condenada. Prova que o anti-semitismo não morreu!

quarta-feira, 1 de julho de 2009

TODA A Verdade Seja Dita!

Que a situação em Gaza é bastante complicada e precária, não é segredo!
Nós, israelenses e nosso governo preferíriamos que não fosse assim, mas o problema do Território da Faixa de Gaza é para nós um problema de segurança nacional.
Nosso bloqueio das fronteiras de Gaza e o bloqueio marítimo são necessários para impedir que radicais islâmicos xiitas entrem em Israel e utilizem Gaza como uma base militar de ataque ao país.
Só pra você poder entender a situação, vou fazer uma comparação. Imagine O Estado de SãoPaulo. A cidade de São Paulo. Bem, de repente a Argentina invade todo o litoral paulista, de Santos até Cananéia, na divisa com o Paraná. Então começa a guerra. A Argentina ataca o Estado de São Paulo pelo litoral. Não invade, mas atira mísseis nas cidades ao redor do litoral, aterrorizando a população.
O que acontece aqui é bem assim. E é um problema de difícil solução, porque mesmo que Israel concedesse todas as exigências do Hamas, mesmo assim eles iriam continuar atacando Israel, porque eles já disseram que JAMAIS vão reconhecer Israel e que Israel TEM QUE SER DESTRUÍDO!
Mesmo assim Israel tem "preservado" a Faixa de Gaza e poupado sua população de algo bem pior que poderia ser feito.
Pena que ninguém vê isso. Se morre um terrorista do Hamas toda a imprensa cai matando encima de Israel, mas quando algo de bom sobre Israel e sua maneira humanitária de tentar tratar do problema acontece, ninguém fala nada, ou se fala, isso ocorre muito tímidamente.
É o que ocorre com uma reportagem do site da Globo. Veja o que diz o repórter nesse trecho:


"Isso deixa Gaza suspensa, em uma situação de miséria que desafia qualquer categorização. É claro, o lugar é povoado e pobre, mas está melhor que quase todas as regiões da África e parte da Ásia. Não existe subnutrição aguda, as taxas de mortalidade infantil se comparam às de países como o Egito e a Jordânia, segundo Mahmoud Daher, da OMS (Organização Mundial da Saúde).

Isso se deve ao fato de que, apesar de Israel e Egito fecharem suas fronteiras durante os últimos três anos, em um esforço para pressionar o Hamas, Israel distribui ajuda diariamente, permitindo a entrada de cerca de cem caminhões com alimentos e remédios. Oficiais militares de Tel Aviv contam as calorias, para evitar um desastre. A agência da ONU para refugiados palestinos administra escolas e clínicas médicas, que são limpas e eficientes".

É claro que existem todos os outros problemas, e nós sabemos e reconhecemos isso. Só não somos os únicos culpados por eles. Se a população de Gaza quizesse realmente a paz, já estariam nela, porque Israel desocupou o território a mais de três anos!
Deixo a dica para que você leia o artigo que eu citei acima. Você pode lê-lo aqui!

A verdade é sempre como uma moeda. Ela tem duas faces. Pra compreender a verdade, você sempre precisa ver os dois lados da mesma moeda. Senão corremos o risco de sempre termos uma idéia parcial da verdade, e verdades parciais podem se parecer muito com mentiras completas! Se não concorda comigo, veja esse vídeo antigo da Folha. Muito Bom!


segunda-feira, 29 de junho de 2009

Toledo, onde tudo começa!


Cada um tem as suas manias, não é mesmo. A minha sempre foi uma certa curiosidade pelas minhas origens. Acho sinceramente que isto tem muito haver com minha formação psicológica, com a necessidade de raízes, de identificação e de sentido de vida. Uma necessidade de saber de onde e para onde.
Desde pequeno me aventuro pela história tentando encontrar as respostas, que por falta de dados mais específicos, sempre foram muito vagas.
O meu sobrenome judeu não é um sobrenome muito comum, o que dificulta a pesquisa. Somente aqueles mais dedicados a está área da história se recordavam de tê-lo visto, lido ou ouvido alguma vez.
Pra ajudar, esse ramo não teve grande interesse pelas américas. Já na europa é um sobrenome mais conhecido, principalmente Espanha (onde se origina), na França e no Marrocos, naturais destinos após a expulsão espanhola de 1492.
Como todo sobrenome antigo, sofreu muitas variações conforme ia sendo traduzido e reescrito nos diversos países por onde esses fugitivos da perseguições e das intolerâncias passavam.
Hachuel, Hochuel, Hatchuel, Hatuel são algumas com que me deparei tanto navegando pela internet como conversando com rabinos, professores e pessoas em geral aqui em Israel. Uma médica recém chegada aqui no país, Dra. Michell, francesa, me disse conhecer pessoas desta família tanto na França como no Marrocos.
É muito gratificante poder ir aos poucos reconstruindo a árvore da família, se bem que no meu caso ainda falta muito pra conseguir chegar a algo parecido a uma árvore. O que tenho são galhos e a raíz. O tronco está ainda perdido no tempo, em algum lugar antes de 1870 aproximadamente, momento da chegada da família ao Brasil.
Essa não é uma busca muito fácil. Leva anos pra se conseguir encontrar alguma coisa relevante, mas é uma busca emocionante. Um dia não se sabe muito de onde vieram seus antepassados, e noutro se encotra todo um fundo histórico, real, algo que explica certas coisas que até então um não podia entender.
Na desenho acima, vemos a bandeira da cidade de Toledo. É uma cidade que se situa no centro da Espanha e foi por muitos anos a capital do Reino. Era um importante centro da vida judaica sefaradí, se não a capital desse importante ramo dos judeus medievais. Alí judeus, cristãos e mulçumanos viveram séculos em quase perfeita harmonia e tolerância. Isso permitiu que nossos antepassados construíssem belas sinagogas e desenvolvessem o judaísmo na sua plena totalidade, com academias de estudo Yeshivot), e uma rica e vasta produção literária. Dalí saíram grandes mestres do Talmud que ajudaram a manter viva a fé de Abraão (Avraham Avinu) durante os anos de perseguição que viriam.
A foto mais abaixo mostra uma vista geral da cidade de Toledo, numa alta colina protegida por um lado pelo rio Tejo.



No vídeo acima pode-se ver um álbum de fotografias de Toledo, exemplos de uma beleza rara pelas misturas de elementos góticos medievais, românicos, mouros e mediterrâneos.
Dali saiu expulsa minha ancestral família. Naquelas estreitas e tortuosas ruas andaram pessoas com o mesmo sangue e código genético que o meu. Alí elas nasciam, cresciam, cumpriam seus rituais de passagem, casavam-se, tinham seus negócios e seus interesses, procriavam, envelheciam e morriam. Assim foi por gerações e gerações até que veio a expulsão e a longa caminhada que termina, no meu caso aqui em Israel. O círculo se fecha, pelo menos para mim. Estamos de volta. Nosso sangue retorna a Pátria Maior e Última do nosso Povo, Israel. Agora só me resta construir minha vida futura e legar aos meus descendentes um pouco da história dos nossos pais.

Dica : Fica aqui a dica do site do Museu Sefaradí, museo dedicado a cultura judeu-espanhola localizado em Toledo, no recinto de uma antiga sinagoga, a Sinagoga do Trânsito.

sábado, 27 de junho de 2009

O Maior Presente Que Já Recebi!

Um dia, eu e um amigo em motsaê shabath (fim de sábado) caminhavamos numa noite agradável e no meio de nossa conversa, ele me disse que tinha chegado a um ponto da vida dele em que se sentia obrigado a definir o que lhe era realmente de valor e descartar as demais coisas.
Ainda que parcialmente, tenho que concordar com ele, se bem que a intenção do meu amigo não era falar de valores, mas de interesses. Para ele o que importava era aquilo que podia atender aos seus interesses "egoístas"!
Hoje, talvez aquilo que eu tenho de maior valor na minha vida, seja justamente algo que eu não posso possuir. Quando digo de "maior", não estou diminuindo por tabela as demais coisas, mas simplesmente tentando demonstrar a posição que isso ocupa em meu ser.
Um sentimento por uma pessoa. Amei como jamais havia amado outra pessoa na minha vida. Tinha certeza de que havia encontrado a mulher da minha vida, a mãe dos meus filhos, a esposa e a amante de todos os meus dias! Mas a vida é carregada das suas ironias e hoje por mais forte que seja esse amor em meu peito, esse amor é passado. Ele vive e viverá para sempre no horizonte da minha memória e nas pulsações do meu coração, mas é algo que eu perdi.
Por isso, essa música que vou postar ( e já tinha postado no blog anterior) se torna perfeita.
É uma música em hebraico, de autoria e interpretação do Ivri Líder, cantor atual do cenário musical israelense. A música já tem dois ou três anos, é lindíssima e fala da certeza de já ter amado e de ter sido amado.
Fica como dica da cultura israelense contemporânea e como a lembrança do meu Anjo, que tanto iluminou o meu ser de esperança, alegria, beleza, sentido de vida, Amor...





Letra e tradução *(gentilmente fornecida pelo site Vagalume)

Zachit Leehov

Uch'shehashemesh nimcheket bashamaim
vehalev metaftef li
derech ha'einaim hachumot
az ani zocher sheyesh einaim
sherotzot oti karov
ani yode'a shezachiti le'ehov.

Uch'sheharu'ach ach'rei hatzohoraim
hi mefazaret anafim k'tanim
uventaim zeh naim
az ani aozher sheyesh einaim
shero'ot otikarov
va'ani yode'a shezachiti le'ehov
ani yode'a shezachiti le'ehov.

Uch'shehashemesh yotzet me'al hamaim
umatchil od yom afor uventaim ein sibah
az ani zocher sheyesh s'fataim
sherotzot oti karov
ani yode'a shezachiti le'ehov
ani zocher sheyesh s'fataim
sherotzot oti karov
ani yode'a shezachiti le'ehov.

Não amei em vão.

E quando o sol está apagado no céu
e (brotam) lagrimas do coração,
por meus olhos castanhos.
Então eu me lembro que há mãos,
que me querem por perto.
e Eu sei que não amei em vão.

E quando o vento da tarde
carrega ramos pequenos,
e o tempo é agradável.
Então me lembro que há olhos,
que me vêem por perto.
E eu sei que não amei em vão,
E eu sei que não amei em vão.

E quando o sol sai por trás das nuvens carregadas de chuva
e outro dia cinzento começa, e ainda que não haja motivos pra isso,
eu me lembro de que há lábios,
que me querem por perto.
E eu sei que não amei em vão,
então eu me lembro de que há lábios,
que me querem por perto.
E eu sei que não amei em vão!*

*Antes que os meus arrogantes, orgulhosos e superiores patrícios azquenazim (fazer o quê se além de azquenazim, a maioria tem parentes na argentina! O Santo e Bendito não teve pena deles!) começem a me atirar pedras pela tradução feita acima, quero esclarecer que SEI MUITO BEM QUE AO "PÉ DA LETRA" A TRADUÇÃO SERIA OUTRA, MAS EU PREFERI O MÉTODO DA TRADUÇÃO INTERPRETATIVA ( que tenta entender como o autor diria o mesmo se o dissesse na língua de Camões, Páh...!). Não se preocupem que a diferença entre a letra em hebraico e a MINHA tradução não é culpa de eu ser sefaradí, moreno e portanto um pária. Economizem os comentários. Obrigado.

Frase do Dia!

"É preciso uma grande coragem para ver o MUNDO em toda a sua CORRUPTA GLÓRIA e (ainda assim) seguir amando-o!".


Frase dita por um dos personagens do filme "Um Marido Ideal".

sexta-feira, 26 de junho de 2009

Exemplo perfeito!

Eu tava aqui navegando meio sem rumo, na verdade tentando encontrar uma ferramente boa e avançada de estudo do hebraico e sem querer achei este vídeo do YouTube.
Pra quem não conhece hebraico não vai entender nada, mas o casal no vídeo representa dois imigrantes (Olê Hadash) que estão nas primeiras classes de Ulpan ( a escola especial de hebraico para os imigrantes em Israel) e por isso quando falam em hebraico, fazem uma salada completa, trocando os gêneros, a ordem nominal, comendo os artigos e conjunções, etc...
Pra mim que já estou saíndo do básico, é um vídeo muito engraçado, porque me fez lembrar justamente o meu tempo de Ulpan, lá no Merkáz HaKlitáh Ye'elim, de Beer Sheva. Lembro-me bem que eramos imigrantes de pelo menos seis a oito países, como Ucrânia, Russia, EUA, Argentina, Austrália, Índia, etc... uma verdadeira Torre de Babel, e como queríamos falar uns com os outros, tinhamos que usar o pouco hebraico que possuíamos. O resultado era bem parecido com o do vídeo, que é excelente!



Se vocês quizerem dar uma olhada em outros vídeos relacionados com o estudo do hebraico, deêm uma olhada na minha "PlayList" da minha Conta no YouTube. Segue abaixo o link:

http://www.youtube.com/view_play_list?p=265ED48B62DAA0CC

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Quanto vale uma Vida?

É incrível a hipocresia humana.
Quando houve o ataque israelense contra Gaza, sempre ficou muito claro que o objetivo do Estado de Israel era atingir e destruir o poderio terrorista que havia se implantado ali. Infelizmente, esses "mártires do Islã", usavam escolas, hospitais, residências e prédios da O.N.U. como escudos, obrigando muitas vezes a perdas desnecessárias de vidas inocentes.
Naquele instante, a imprensa mundial "caiu de pau" sobre Israel, e nós judeus do mundo inteiro fomos acusados dos mais absurdos crimes. A imprensa brasileira não ficou atrás e destilou todo o seu veneno com matérias tendenciosas e duvidosas, que não tinham a menor base nos reais fatos, salvo algumas excessões.
Agora, novamente, como em tantas outras ocasiões, no mundo se repete outro conflito bélico, entre regiões étcnicas com verdadeiros (agora sim verdadeiros e expressivos) massacres, mas sem a menor atenção do jornalismo mundial e brasileiro. Por que será? Será que falar mal de Israel e dos judeus dá mais lucro? Vende mais? Ou será que é somente um sentimento anti-semita que sempre espera a oportunidade de se mostrar e tentar convencer de que Israel e os judeus são os culpados por todos os problemas do mundo?
Bem. Espero que leiam o artigo do "Estadão", que muito silenciosamente fala desse massacre de civís, crianças, idosos, mas que não mereceu a atenção devida.
Também segue um comentário de um site da comunidade judaica que cuida de analizar e denunciar o tendencialismo na mídia contra Israel e contra os judeus de uma maneira em geral.
E terminando, deixo minha pergunta final.
Será que as vidas dos palestinos de Gaza valem muito mais do que as vidas dos cidadãos do Sri Lanka?

Reportagem do Estadão:

http://www.estadao.com.br/geral/not_ger378934,0.htm


De Olho na Mídia:

http://www.deolhonamidia.org.br/Comentarios/mostraComentario.asp?tID=417



Onde estão as fotos das crianças mortas no Sri Lanka?
Onde estão os protestos mundiais contra o massacre no Sri Lanka?

Pessoalmente, acho que todas as vidas tem o mesmo valor. Pena que o Islã (de maneira geral) e a mídia ocidental não pensem assim!

Algumas fotos podem ser vistas aqui!:

http://noticias.uol.com.br/ultnot/internacional/2009/05/14/ult1859u977.jhtm
http://www.bbc.co.uk/portuguese/noticias/2009/05/090512_srilankacruzvermelhafn.shtml
http://www.tvi24.iol.pt/internacional/sri-lanka-tigres-tamil-rebeldes-escudos-humanos-tvi24-ultimas-noticias/1057277-4073.html

domingo, 21 de junho de 2009

Frase do Dia!

"Somente dentro de si mesmo o homem pode encontrar a(s) solução(ões) para o(s) seu(s) dilema(s)".


Dito por muitos, mas praticado por poucos...

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Lutando contra o Descontentamento!

Bom, mais uma faze nova, depois de apagar completamente meu blog por já duas vezes, espero que agora eu consiga me auto-satisfazer com essa nova proposta.
O primeiro, que construí logo após que cheguei em Israel em 2006, acabou se tornando um caderno de filosofia. Nele apenas discorria sobre minhas idéias e pensamentos, de maneira bem cansativa e pouco interessante para quem estaria lendo.
No segundo, consegui iniciar a proposta de transmitir um pouco de Israel, mas como estava sem tempo, acabei somente postando vídeos do YouTube com alguns comentários, e depois acabei descambando pra uma direção pessoal, onde comecei a postar vídeos de músicas que tinham a ver com uma relação que eu estava tendo.
Desta vez quero ver se consigo diversificar um pouco mais. Como estou um pouco doente e com licença médica, talvez sobre mais tempo pra postar minhas milhares de fotos que tenho tirado nesses anos daqui, da Terra Santa e assim possa transmitir um pouco da cultura, dos costumes, das curiosidades e do dia-a-dia de Israel, dos israelenses e como nós os Olim Hadashim nos relacionamos a tudo isso.
Para aqueles que me honrarem com sua visita, amigos ou desconhecidos, muito obrigado e espero que gostem, comentem, critiquem e ajudem na construção desta proposta.
Um grande abraço a todos, direto de Israel.

P.S. Gravei esse vídeo no dia de Yom HaAtzmaut de 2007, num passeio que fiz com a Yeshivat Machon Meir. Estávamos nas colinas visinhas de Jerusalém, na saída para Tel Aviv, num ponto histórico, que foi palco das batalhas pela reconquista e liberação da Capital na Guerra da Independência. Uma visão panorâmica impressionante!